Silêncio. É o que as plaquinhas nas entradas das igrejas costumam pedir. Mas em muitas catedrais da Europa, existe um momento grandioso em que o silêncio é quebrado com graves e agudos que transcendem o sagrado.
A Europa tem salas de concerto impecáveis, mas, quando o assunto é música que toca no peito, as catedrais levam vantagem: acústica privilegiada, órgãos colossais, atmosfera solene, coros centenários e uma agenda que mistura música, patrimônio e performance.
Este roteiro foi inspirado na minha experiência na Basílica de Sacré Cœur, em Paris, pois cheguei para a visita pouco tempo antes de uma celebração religiosa. Assim, tive a oportunidade de ouvir um coro em outro idioma e com uma acústica incrível. Isso me tocou, e me inspirou a entender a história das músicas “centenárias” entoadas em algumas catedrais que já visitei na Europa.
Para além de templos religiosos, esses espaços muitas vezes são palcos de acontecimentos históricos e culturais, como os concertos. E, muitas vezes, esses acontecimentos estão entrelaçados.
Nesse artigo eu vou contar onde e como ouvir música dentro de catedrais que não são apenas monumentos: são também, instrumentos.
Catedrais da Europa: conheça templos que ecoam música e história
- Reims – Catedral de Notre-Dame de Reims
- Praga – Catedral de São Vito
- Dresden – Frauenkirche
- Berlim – Berliner Dom
- Bruxelas – Catedral de São Miguel e Santa Gudula
- Paris – Catedral de Notre-Dame e Sainte-Chapelle
- Málaga – Catedral de Málaga
- Madri – Catedral de Almudena
Reims – quando o gótico vira caixa de som
Construída no século XIII, a Catedral de Notre-Dame de Reims é famosa por ter sido o local da coroação de reis franceses. Patrimônio da UNESCO, abriga vitrais modernos de Marc Chagall. Durante a Primeira Guerra Mundial, sofreu graves danos e foi restaurada no século XX.
Além do interior e do órgão monumental, caminhe pela praça em frente para apreciar a imponência da fachada gótica. Além disso, a praça é bastante movimentada e cercada por bistrôs, cafés e restaurantes. Ótima pedida para qualquer hora do dia.
Na entrada principal, à esquerda, observe o famoso L’Ange au Sourire, ou o “anjo sorridente” e, uma vez no interior, atente-se para a enorme rosácea no vitral.
A Catedral Notre-Dame de Reims ficou marcada como a primeira que visitei na Europa, e fico feliz por ter sido uma igreja que achei tão bonita.
O que a catedral guarda: Em Notre-Dame de Reims, o grande órgão, com cerca de 6.600 tubos e 85 registros, ocupa o transepto norte e é usado com frequência para concertos. É um dos maiores da França e foi reinaugurado no século XX após danos de guerra.
Quando ir: Entre 19 de junho e 19 de julho, a cidade vibra com o festival Flâneries Musicales: uma maratona de concertos em patrimônios da cidade, incluindo a catedral. É clássico com cara de piquenique: música + patrimônio + champanhe.
Como fazer: acompanhe a programação do festival e chegue cedo. Os concertos em espaços monumentalizados lotam rápido (e o pôr do sol entrando pelos vitrais vale o esforço).
- Funcionamento: Todos os dias, das 7h30 às 19h30 (domingo até 19h15).
- Ingresso: Entrada gratuita; tours guiados pagos estão disponíveis.
- Confira a programação no site.
Praga – o “novo” órgão que completa 700 anos de história
Localizada no Castelo de Praga, sua construção levou quase 600 anos, sendo concluída apenas em 1929. A Catedral de São Vito pode ser avistada do centro de Praga, e guarda as joias da Coroa da Boêmia e o túmulo de São Venceslau. O novo órgão, em fase de instalação, será um dos mais modernos da Europa.
Suba na torre sul para vistas panorâmicas de Praga, e visite a capela de São Venceslau, onde estão relíquias históricas.
Eu subi em diversas torres de Praga, incluindo a da igreja e acho que todas valem a pena, pois cada uma oferece uma vista especial e particular da cidade.
Como esta catedral está em um dos maiores complexos de castelos do mundo, minha dica é reservar um dia inteiro para a visita da catedral e dos outros espaços.
O que a catedral guarda: A Catedral de São Vito está instalando um órgão novo de mais de 6.000 tubos, obra do ateliê espanhol Gerhard Grenzing. A montagem começou em abril de 2025 e a inauguração está marcada para 15 de junho do ano que vem (Dia de São Vito), passo final simbólico na longa construção do monumento.
Além de devolver projeção sonora integral à nave, o projeto nasceu de uma campanha de doadores (20 mil apoiadores “adotaram” peças do instrumento), reforçando a ideia de que patrimônio vivo se sustenta em comunidade.
Como fazer: se estiver em 2025, procure visitas e ensaios abertos. Para 2026 em diante, vigie a temporada inaugural do órgão.
- Funcionamento: Segunda a sábado, das 9h às 17h; domingos, das 12h às 17h (varia no inverno).
- Ingresso: Parte do complexo do Castelo de Praga; o ticket completo custa cerca de 350 CZK (~14 €).
- Confira a programação no site.
Dresden – uma reconstrução que também soa
Originalmente do século XVIII, a Frauenkirche foi destruída durante a Segunda Guerra Mundial e deixada em ruínas como memorial até a reunificação alemã. Reconstruída entre 1994 e 2005, é símbolo da paz e reconciliação.
Hoje ela se destaca entre as igrejas luteranas de Dresden, e o que mais chama a atenção é a cúpula panorâmica, acessível por escadas ou elevador, que revela uma das melhores vistas de da cidade..
A praça ao redor é bastante movimentada e um ótimo lugar para conhecer o dia a dia da cidade. Repare em uma pedra próxima a igreja, remanescente da antiga construção destruída pela guerra.
O que a catedral guarda: A Frauenkirche foi reconstruída após a reunificação alemã e reaberta em 2005, inclusive o órgão principal, construído por Daniel Kern no espírito de Silbermann. A igreja mantém programação regular de vesperais e recitais de órgão.
Como ouvir: a agenda oficial lista Orgelvesper, cantatas e grandes obras corais; verifique as noites de órgão solo, ideais para sentir o espaço respirando junto com o instrumento.
- Funcionamento: Segunda a sexta, das 10h às 12h e das 13h às 18h; sábados das 10h às 15h; domingos das 12h30 às 18h.
- Ingresso: Entrada gratuita para a nave; subida à cúpula custa cerca de 10 €.
- Confira a programação no site.
Berlim – potência sinfônica dentro do domo
Construída em 1905 em estilo neobarroco, é a maior igreja protestante da Alemanha. O órgão Sauer, com quase 7.300 tubos, é um dos maiores da Europa. No subsolo, a cripta dos Hohenzollern guarda túmulos da antiga família real da Prússia.
Combine a visita com um passeio pela Ilha dos Museus, outra atração imperdível na capital da Alemanha.
Ah, e não perca a subida à cúpula. Após 270 degraus, a vista panorâmica do centro de Berlim compensa.
O que a catedral guarda: Na Berliner Dom, o órgão Sauer (1905) é o maior da cidade e um sobrevivente notável da era imperial. É um monstro de múltiplos milhares de tubos (completo em timbres românticos e coros de palhetas) e estrela uma série contínua de recitais.
Como ouvir: acompanhe a série de Orgelkonzerte do Dom. Há récitas curtas no fim da tarde que cabem no roteiro entre museus da Ilha.
- Funcionamento: Todos os dias, das 9h às 20h (horários variam no inverno).
- Ingresso: Entrada custa 10 € (inclui acesso à cúpula e cripta).
- Confira a programação no site.
Bruxelas – um “ninho de andorinha” que voa alto
Construída entre os séculos XIII e XV, em estilo gótico brabantino, recebeu coroações reais e hoje é palco de concertos do festival Ars in Cathedrali. O órgão de 2000, suspenso como “ninho de andorinha”, é destaque arquitetônico.
Observe os vitrais renascentistas e a cripta arqueológica, com restos da primeira igreja do século XI. Sem dúvidas, uma joia de Bruxelas.
O que a catedral guarda: Na Catedral de São Miguel e Santa Gudula, o órgão de Gerhard Grenzing (inaugurado em 2000) fica suspenso em posição de “ninho de andorinha” e tem mais de 4.300 tubos. É a joia da série Ars in Cathedrali e palco de noites de órgão assinadas por instituições como a Bozar.
Como ouvir: a Organ Night costuma lotar com programas que vão de Bach a transcrições sinfônicas; chegue com antecedência para ficar na nave central.
- Funcionamento: Segunda a sexta, das 8h às 18h; sábados e domingos, das 8h às 15h.
- Ingresso: Entrada gratuita; visita à cripta arqueológica custa cerca de 2 €.
- Confira a programação no site.
Paris – enquanto Notre-Dame renasce, a cidade toca
Símbolo de Paris e da França, foi iniciada no século XII e recentemente restaurada após o incêndio de 2019. Reaberta ao público em dezembro de 2024, seu Grande Órgão é um dos mais famosos do mundo.
A catedral ainda em fase de reabertura gradual, mas os interiores já podem ser explorados. Ela ainda não estava aberta quando estive em Paris, mas mesmo assim, a parte externa e a exposição temporária com realidade aumentada estavam sempre lotadas.
O que a catedral guarda: Notre-Dame reabriu ao público em 8 de dezembro de 2024. O Grande Órgão, histórico e pouco danificado pelo incêndio de 2019, foi limpo, reassemblado e rebenzido em 2024, com voicing/harmonização noturna estendendo-se ao longo de 2024 e início de 2025.
- Funcionamento: Todos os dias, das 8h às 18h45.
- Ingresso: Entrada gratuita, mas existem visitas guiadas à parte.
- Confira a programação no site.
E enquanto isso… A Sainte-Chapelle mantém um circuito constante de concertos (centenas por ano), fórmula perfeita para quem quer música de câmara sob vitrais góticos. O calendário 2025 segue ativo com poucas pausas sazonais.
Construída no século XIII para abrigar relíquias da Paixão de Cristo, é famosa por seus vitrais góticos que iluminam toda a capela. Foi um dos lugares que mais me impressionou em Paris. É aquele tipo de atração que você não consegue parar de olhar e quer continuar lá dentro olhando, tamanha beleza.
Eu visitei durante a manhã, por questões de roteiro, mas soube que é melhor no fim da tarde, quando a luz do sol atravessa os vitrais e transforma o espaço em um caleidoscópio.
Como ouvir: combine tarde no Musée d’Orsay e noite na Sainte-Chapelle; para Notre-Dame, fique atento a anúncios oficiais sobre a retomada plena de concertos do Grande Órgão pós-restauro.
- Funcionamento: Todos os dias, das 9h às 19h.
- Ingresso: Entrada custa 13 €.
- Confira a programação no site.
Málaga – dois órgãos gêmeos, tradição gigante
Conhecida como “La Manquita”, por sua torre sul nunca concluída, essa catedral da Europa mistura estilos renascentista e barroco. Os dois órgãos gêmeos do século XVIII somam mais de 4.000 tubos.
Além da nave principal, vale a pena fazer uma visita às coberturas, que oferecem vistas espetaculares do centro histórico de Málaga e do mar. E o templo fica bem no centro histórico da cidade, perto de várias outras atrações que podem ser visitadas a pé.
O que a catedral guarda: A Catedral de Málaga tem dois órgãos históricos gêmeos (século XVIII, associados a Julián de la Orden), utilizados em ciclos anuais gratuitos no fim de maio e início de junho, uma tradição com mais de trinta edições, sustentada pelo cabildo e parceiros locais.
Como ouvir: o Ciclo de Concertos de Órgão costuma ocorrer às 20h, com média de 600 pessoas por noite. Programe-se e aproveite para subir às coberturas (obra de novo telhado em curso) em outro horário.
- Funcionamento: Segunda a sexta, das 10h às 20h; sábados das 10h às 18h; domingos, das 14h às 18h.
- Ingresso: Entrada geral custa 6 €; com acesso ao telhado, cerca de 10 €.
- Confira a programação no site.
Madri – a jovem catedral que toca grande
Relativamente jovem, a Catedral de Almudena foi inaugurada em Madri em 1993, após mais de um século de obras. Combina estilos neogótico e neorromânico. Foi o local do casamento de Felipe VI e Letizia em 2004. Seu órgão Grenzing, de 1999, é destaque musical.
Minha dica é que você visite também o Museu da Catedral e, se possível, vá em um concerto de órgão.
A Catedral de Madri fica bem perto do Palácio Real e de outras atrações importantes, como a Plaza Mayor.
O que a catedral guarda: A Almudena é jovem, mas seu órgão Grenzing (inaugurado em 1999) dá o tom de uma programação que inclui solistas internacionais e colaborações com coros da capital.
Como ouvir: fique de olho nos ciclos de órgão divulgados pela arquidiocese e pelos próprios organistas titulares; muitas récitas têm entrada livre.
- Funcionamento: Todos os dias, das 9h às 20h30.
- Ingresso: Entrada sugerida de 1 € Museu e Cúpula custam 6 €.
- Confira a programação no site.
A playlist do viajante (o que priorizar se você só tem 1 ou 2 noites em cada cidade)
- Berlim: recital de órgão no Dom + caminhada iluminada pela Ilha dos Museus. É impacto acústico máximo em pouco tempo.
- Bruxelas: Organ Night na catedral. Programação curada, hall central fotogênico.
- Paris: concerto na Sainte-Chapelle. O combo vitral + cordas é imbatível; monitore comunicados sobre a retomada de concertos em Notre-Dame.
- Málaga: pegue o Ciclo de Órgão (maio/junho) para ouvir dois órgãos ao mesmo tempo. Experiência rara.
- Reims: alinhe sua visita às Flâneries Musicales para ver a catedral em modo festival.
- Dresden: Orgelvesper na Frauenkirche. Liturgia curta que rende música de primeira.
- Praga: se a viagem cair perto da inauguração do novo órgão (junho de 2026), compre antes.
Dicas práticas para quem quer ouvir bem (e não só “ver a igreja”)
Assentos: nave central e primeira travessa lateral costumam oferecer melhor equilíbrio entre ataque e reverberação. Evite ficar muito perto das paredes. (Teste fácil: bata palmas discretas antes do concerto; se o retorno “borra” muito, avance algumas filas.)
Outra dica bacana sobre está relacionada ao “fio condutor” desse artigo, isto é, os órgãos. Em algumas catedrais, é possível escolher um assento que permita vislumbrar este instrumento musical durante o concerto, o que eleva ainda mais a experiência. Afinal, como dizia Honoré de Balzac, o órgão é “o mais grandioso, ousado e magnífico de todos os instrumentos inventados pelo gênio humano”. Você não vai querer perder essa vista, certo?
Programas certos para espaços longos: Bach, Franck, Messiaen funcionam impecavelmente; transcrições orquestrais (Wagner, Ravel) ganham uma camada quase cinematográfica em órgãos sinfônicos como o Sauer de Berlim.
Chegue cedo: muitos concertos são gratuitos ou sem assento marcado (Málaga, várias séries em Dresden/Bruxelas).
Calendários mudam: confirme datas da própria igreja ou produtor (Sainte-Chapelle tem pausas sazonais em 2025).
Por fim, confira o site Classictic, que apresenta um calendário de concertos, incluindo os que acontecem em catedrais da Europa. É possível buscar por cidade e data.
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Se a Europa é um grande palco, as catedrais são as suas caixas acústicas ancestrais. Nelas, pedra, história e ar viram música. E nós, viajantes, viramos plateia de luxo.
Chegue cedo, olhe para cima e deixe o fôlego do órgão “levar” sua viagem para outros tempos.
por Camila Coubelle
Amei o post! Deu pra imaginar o som, a luz e a arquitetura de cada catedral com sua escrita…
Você saberia se essas catedrais mantém uma agenda pública de concertos?
Se sim, existe algum calendário online para acompanhar a programação?
Olá Carlina, que bom que gostou! 😉
Nos sites que eu indiquei em cada tópico você consegue acessar mais informações sobre agenda.
Faltam muitas igrejas na lista, mas essas sõa mesmo incríveis!