Como é a visita ao Museu da Loucura em Barbacena

 

Muito tempo depois que saímos do Museu da Loucura em Barbacena, Zona da Mata mineira, ainda ouvíamos o som do coração batendo. Dentro da sala minúscula, a intenção é remeter à sensação que o paciente tinha antes de passar por uma lobotomia. As batidas, os ladrilhos brancos, a intencional falta de espaço e os objetos cirúrgicos usados, de fato, são um soco no estômago. Tudo ali no museu é.

Logo na entrada, em uma pequena sala, nos deparamos com os primeiros documentos históricos. Uma foto na parede mostra os trabalhadores que construíram os pavilhões do Hospital Colônia – inclusive há tijolos utilizados nas obras. Nessa mesma sala, conhecemos a história do lugar através de uma “linha do tempo”, com detalhes e fotos marcantes de cada época, observamos alguns objetos pessoais de Joaquim Dutra, fundador do hospital, e até um livro de anotações de 1880.

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Acervo do Museu da Loucura, Barbacena

Chama a atenção o relato sobre o “trem de loucos” que chegava com seus vagões cheios. A Parada de trens da Estrada de Ferro Dom Pedro II, que antes era um luxo do sanatório particular que funcionava no local se tornou o terror de muitos. (Antes era usado como hotel de veraneio e casa de repouso para doenças nervosas, com diárias caras e comodidade).

Na sala seguinte, à esquerda, começamos a ter uma noção maior do que era estar no Hospital Colônia. Uniformes usados pelos pacientes nos recebem na porta, os chamados “azulões”, que eram sinônimo da perda da identidade deles. Avistamos mais algumas fotografias e bonecos feitos pelos pacientes (um deles possui algemas), confeccionados para distração própria, já que tudo era recolhido na entrada, inclusive documentos. Na sala seguinte, utensílios de cozinha utilizados no hospital presos ao teto ficam espalhados em uma parede. As fotos ao fundo e ao redor retratam o horror vivido por aquelas pessoas.

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À medida que adentramos as salas do museu, vamos mergulhando nessa história macabra. Mais alguns passos e surge algo inesperado. Um crânio de algum paciente. Na legenda a explicação: representa o comércio de cadáveres para faculdades de medicina de Minas Gerais e do Rio de Janeiro. Milhares de corpos desapareceram “inexplicavelmente” na época, sem o consentimento de familiares.

Logo nos primeiros anos, o Hospital Colônia já apresentava sinais de superlotação. Em 1940, a casa recebia 3.500 internos. A proliferação de doenças era constante e, por ano, eram contabilizadas cerca de 700 mortes.

 

Curiosidade: olhando para cima no vão da escada, parece que vemos um coração formado pelos corrimãos.

 

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Seguindo para o segundo andar do prédio, nos deparamos com uma obra chocante: uma grade instalada no teto revela a foto de uma interna. Nesse momento, um nó na garganta é capaz de resumir a miscelânea de sentimentos ao nosso redor.

Quando decidimos conhecer o Museu da Loucura de Barbacena, na Zona da Mata de Minas Gerais, não sabíamos muito bem o que nos aguardava. O que se sabia até então era que anos atrás havia um manicômio na cidade, que com o passar do tempo sofreu com a superlotação e a segregação da sociedade. Isso é verdade sim, mas a história dos tristes relatos dessa realidade, nós só fomos descobrir lá no museu.

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O Museu da Loucura

 

Fundado em 1996, o Museu da Loucura tem como objetivo mostrar a história do Hospital Colônia de Barbacena, uma casa psiquiátrica criada no ano de 1922 para acolher pacientes com transtornos mentais. À época, só existia um hospital psiquiátrico no Brasil, instalado no Rio de Janeiro. A má gestão e a ignorância da população quanto ao verdadeiro intuito do projeto levaram a casa a um colapso gradativo e, ao longo de cem anos, os pavilhões daquela “cidade dentro da cidade” se tornaram um lugar inóspito, incapaz de ajudar ou devolver à sociedade qualquer paciente que ali estivesse por infortúnio do destino. O Hospital Colônia se tornou um depósito de pessoas excluídas da sociedade. A maioria não tinha qualquer problema mental. Muitos eram escondidos ali pelos familiares, rejeitados, vítimas de abuso, homossexuais, alcoólatras, epiléticos, pessoas que incomodaram de algum modo uma sociedade intolerante… Suas mortes não eram sentidas, e estima-se que foram cerca de 60 mil. Muitos rostos em fotografias estampadas ali no museu, volta e meia são reconhecidos por algum visitante, nos contou uma funcionária.
O acervo do segundo andar é até um pouco assustador, diria. Em uma sala escura, ouvimos os sons do sofrimento dos internos. Somos “teletransportados” para dentro dos pavilhões. Os áudios, gravados pela imprensa, são divulgados de maneira crua, tal como foram captados. A sensação de impotência diante do passado comove. Entre gritos e cantorias, algumas pessoas contam de forma lúcida e consciente como foram parar ali.
Revoltados com a situação, eram algemados, presos e torturados com procedimentos como eletroconvulsoterapia e lobotomia. Os eletroconvulsores e aparelho de eletrocardiograma originais utilizados no Hospital Colônia de Barbacena, sem anestesia e com o risco de luxações, fraturas e eventualmente, parada cardíaca ou respiratória fazem parte do acervo. Na sala com os batimentos cardíacos, além dos instrumentos usados na lobotomia, está o “picador de gelo”, usado na lobotomia transorbital, um método mais rápido e barato de acessar o cérebro, com resultados controversos e irreversíveis.

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Hospital Colônia visto de cima e raios-x das lobotomias

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Instrumentos da época usados na lobotomia

Com a superlotação, era comum a nudez e o uso do leito único, em que a cama era retirada e todos dormiam no chão coberto por capim, em meio a insetos, ratos, dejetos e submetidos à baixas temperaturas. As fotografias do museu impressionam.

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Muitas fotografias do Museu foram feitas pelo fotógrafo Luiz Alfredo, na época da reportagem da revista O Cruzeiro (1961)

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São diversas fotografias no acervo do museu

Em 1958, tiveram início as inúmeras denúncias de maus tratos contra os pacientes. A imprensa começou a buscar respostas para as mortes constantes, para a falta de cuidado com os internos e a desorganização em torno da colônia. Grandes reportagens da revista O Cruzeiro e do Diário da Tarde chocaram a sociedade. Nessa época, o hospital abrigava quase 5 mil pacientes.

No Museu da Loucura existe uma sala dedicada a estas reportagens. Em 1979, o jornalista Hiram Firmino fez uma série para o jornal O Estado de Minas, nomeada “Nos porões da loucura”. Há a reprodução completa da reportagem “Hospício de Barbacena, Sucursal do Inferno”, da Revista O Cruzeiro de maio de 1961. O livro Holocausto Brasileiro, lançando em 2013 pela jornalista Daniela Arbex também retrata a história do hospital e reproduz a reportagem. No museu ainda há informações sobre o documentário “Em nome da razão”, do cineasta Helvécio Ratton, que mostra toda a decadência do Hospital Colônia. A tragédia era tão grande que um psiquiatra italiano, Franco Basaglia, em visita ao manicômio, comparou o Hospital Colônia de Barbacena a um campo de concentração nazista.

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Reprodução das reportagens

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É possível ler as denúncias da imprensa da época

Ao percorrer esta, que é uma das últimas salas, começamos a ter noção de como a sequência de denúncias, movimentos de grupos de trabalhadores da área de saúde mental e de grupos ligados à defesa dos direitos humanos, de políticas públicas e boa gestão podem transformar a vida de pessoas com algum transtorno psiquiátrico. Ali começamos a ver o quão importante é a inclusão dessas pessoas na sociedade. Excluir, segregar, diferenciar… nada disso trará dignidade ou qualidade de vida para elas. Nas salas seguintes o que “ouvimos” são gritos de esperança.

Nas décadas de 1980 e 90, com congressos, movimentos e um projeto de lei federal que propunha o fim gradual dos manicômios e obrigava as casas a substituírem as formas de tratamento, os rumos da história começaram a mudar. Iniciava-se aí a reforma psiquiátrica no país. Na última sala do Museu da Loucura podemos ver os cartazes desse esforço que criou o Dia Nacional de Luta Antimanicomial (18 de maio).

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Registros da Luta Antimanicomial

Podemos ver também o trabalho dos pacientes assistidos pelas Residências Terapêuticas que, desde 2013, auxiliam na busca pela qualidade de vida das pessoas com transtornos ou deficiências mentais.  Em Barbacena existem, hoje, 33 casas terapêuticas. A cidade, que ganhou o estigma de “cidade dos loucos” não esconde seu passado e mostra o caminho para a conscientização e a inclusão. Conhecer essa história nos leva a refletir sobre o presente e a trabalhar para um futuro em que erros como esse e outras formas de violência “velada” não se repitam.

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A esperança é colorida!

O Museu da Loucura ficou fechado por dois anos para reformas e adaptação de novos recursos audiovisuais, e foi reaberto em agosto de 2016, ano em que completou 20 anos de existência. O museu não é espaçoso mas tem um amplo acervo. O local não oferece acessibilidade a pessoas com deficiência e as visitas guiadas de grupos maiores podem ser agendadas por telefone. No domingo em que fomos, muitos outros visitantes de várias idades e lugares circulavam por lá.

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Fachada do Museu da Loucura

 

Como Chegar

O museu fica em um prédio à parte dentro no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena – CHPB (onde funcionava o antigo Hospital Colônia), e os visitantes podem estacionar o carro no local, mas é preciso se identificar na entrada. Lembre-se: não é permitido fotografar os pacientes que circulam por ali.

Barbacena está a cerca de 170 quilômetros da capital Belo Horizonte e a cerca de 90 quilômetros de Juiz de Fora, na Zona da Mata, ambas ligadas pela BR-040. Para chegar de carro no museu, procure pelo trevo da BR-040 mais próximo ao Parque de Exposições Senador Bias Fortes em Barbacena, que fica ao lado de onde está o Museu da Loucura.

 

S E R V I Ç O

Museu da Loucura

  • Endereço: Avenida 14 de Agosto, s/ nº, Bairro Floresta, Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB)
  • Entrada gratuita
  • Horário de Funcionamento: de terça a domingo, das 9h às 12h e das 13h às 17h
  • Telefones: (32) 3339-2625 / (32) 3339-1611
  • Outras informações: através do e-mail chpb.nep@fhemig.mg.gov.br

 

Museu da Loucura: Barbacena – MG
Data da viagem: outubro de 2016

Por Camila Coubelle e Nange Sá

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