Travessia do Salar de Uyuni: 3º dia

Prepárense, mañana levantarse a las cuatro y salió a las cinco de la mañana.” Foi dessa maneira que Gérson, nosso guia, se despediu do grupo no hostel. Quando estávamos nos preparando para dormir no quarto modesto e de luz fraca, sabíamos apenas que o terceiro dia no Salar de Uyuni nos reservaria grandes emoções. Só não sabíamos quais, exatamente. De uma coisa tínhamos certeza: seria uma noite fria, muito fria. E fomos dormir com o vento assoviando do lado de fora, como uma sinfonia, sem hora para acabar.

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Gêiseres “Sol de Mañana”

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Gêiseres “Sol de Mañana”

E acordamos da mesma maneira, com o pensamento bailando ao som da ventania. Nada melhor do que um café bem quente e algumas xícaras de chá para aquecer e espantar a ansiedade. Nosso destino era os Gêiseres “Sol de Mañana”, uma área desértica de cerca de dois quilômetros, ao sul da Laguna Colorada. Às cinco da manhã, lá estávamos nós, ainda embriagados de sono, seguindo rumo aos 4.850 metros de altitude. Mesmo ansiosos, todos dormiram no caminho. Gastamos cerca de uma hora até chegar ao nosso destino. O frio aumentava à medida que íamos avançando pelo deserto e, de repente, os barulhos do lado de fora começaram a despertar os ocupantes do jipe. Estávamos perto. Ao avistar as fumaças saindo de dentro da terra, ninguém mais pensou em frio e todos, sem exceção, saltaram incrédulos do carro. Nas crateras, as lavas vulcânicas ferviam e se transformavam em vapor e fumaça, faziam barulhos estrondosos e exalavam um forte cheiro de enxofre. Isso sem falar no frio cortante a quase cinco mil metros acima do nível do mar. Mas nada nos tirava dali, aos pés de vulcões adormecidos e nas profundezas da rocha derretida, fervendo e transformando o ambiente, buscando a sua fuga para a superfície. As plumas esfumaçadas de vapor eram gigantes. Nada tinha sido tão estranho. Parecia um outro planeta, ou na Lua, talvez. Logo o sol apareceu e sinalizou que era hora de partir. Ficamos lá por cerca de 40 minutos. A despedida foi difícil, mas precisava acontecer. Refleti, naquele momento, o quanto esse passeio superou completamente minhas expectativas. Pensei que, se outros lugares quisessem me surpreender, teriam que ser muito bons mesmo! Partimos dali rumo às piscinas de águas termais, águas aquecidas por atividades vulcânicas. Uma bela experiência para se contar. Melhor ainda, para se viver. A piscina de águas termais fica dentro do Parque Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa e é preciso pagar Bs. 6 para entrar na água. O ambiente parece o de um clube, desses que tem em todo lugar, com muita gente, vestiários e restaurante. Nosso guia nos dá uma hora para o banho. Hora de enfrentar o frio e vestir biquínis e sungas.

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Mas antes, recebemos uma notícia ruim: dentre as localidades programadas para o último dia, aquela seria a última, pois as lagunas Verde, Vinto e Negra estavam indisponíveis para visitação por causa dos fortes ventos da noite anterior. Uma pena! Além disso, este foi o ponto onde nos despedimos de uma companheira de viagem, Justine, que seguiu para San Pedro do Atacama com outro grupo. Continuamos com nosso grupo, agora com cinco pessoas e nos divertimos com os 38 graus que fazia embaixo d’água. Só debaixo mesmo, porque do lado de fora o termômetro marcava 6 graus (brrrr!). Como não íamos mais conhecer as lagunas, partimos para outros lugares. A expectativa agora se transformava em frustração. “Será que os outros pontos serão tão bonitos quanto os que esperávamos conhecer?” Ainda bem que sim! No caminho para o povoado de Vila Alota, onde nosso almoço seria servido, paramos para admirar o Salar Capina. É de lá que os locais retiram o sal para comercializar. É bem menor do que o Salar de Uyuni, nem se compara, mas tem uma beleza semelhante, ainda mais quando o branco do sal contrasta com o céu azul e a paisagem verdinha ao redor. Sempre emocionante. Por falar em emoção e paisagem, dou destaque especial ao caminho até Vila Alota. Rochas, deserto e plantações se misturam a grandes rebanhos de lhamas e alpacas. E, ao chegar na cidade, outra surpresa, as casas se multiplicam por entre as rochas gigantescas, como em um cenário de filme medieval, ou algo do tipo. Com certeza, um lugarzinho bem simpático e tranquilo para recarregar as energias. Após o almoço, seguimos para outro lugar inesperado, uma enorme e linda região de formação de rochas vulcânicas. Eram a “Copa do Mundo” e a “Itália Perdida”. Uau! Como as rochas se encaixaram bem com a paisagem. Meus olhos brilharam em uma mistura de satisfação e tristeza. Aquele era o último lugar, a última parada.

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Salar Capina

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“Itália Perdida”

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“Itália Perdida”

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“Copa do Mundo”

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o verde do caminho

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Salar Capina ao fundo

Dali, voltamos para Uyuni, onde nosso mochilão pegaria novamente a estrada. Tão bom partir com o coração cheio de coisas boas, mas também seria bom ficar um pouco mais. Esse misto de emoções nos acompanhou pelos 25 dias de viagem. Deixamos um pedacinho de nós a cada parada e levamos um pedacinho do que vimos na memória e no coração. Conhecer, ver e tocar o Salar de Uyuni foi, com certeza, a realização de um sonho e cada passo foi dado com todo amor do mundo, talvez por isso tenha sido tão especial. Talvez por isso ainda lembre de cada momento dessa história. Que bom poder contar minhas emoções. Espero que você, que agora lê meu depoimento, tenha sensações parecidas ou até melhores quando chegar a sua vez de conhecer o deserto de sal mais famoso do mundo. Depois me conta!

Confira aqui no blog Vida sem Paredes quais foram as nossas sensações no primeiro e no segundo dia de tour pelo Salar de Uyuni. Também foi emocionante!

 
Data da viagem: abril de 2016
Por Nange Sá

Sobre Vida sem Paredes

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3 Comments

  1. Olá, estamos amando os relatos de vocês sobre a Bolívia. Gostaríamos de saber de que horas o tour acabou e vocês chegaram a Uyuni. Além disso, a passagem de Uyuni a La Paz vocês compraram na hora?

    • Oi Camila! Obrigada, que bom que gostou. O tour terminou por volta das 18h e deu tempo de comprar a passagem para La Paz para 20h. A oferta de onibus é boa então é bem tranquilo de comprar. E ainda tivemos um tempinho antes da viagem para comer. Abraços

  2. Oi muito bacana os posts de vocês sobre a Bolívia!

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